A pele não esquece (mas aprende)
- Carla Knust
- há 2 dias
- 4 min de leitura

(uma crônica de consultório)
Tem dias em que o consultório parece uma estação de trem. Gente chegando com pressa, com culpa, com esperança. Gente saindo mais leve, ou apenas com um mapa. E tem dias, mais raros, em que o consultório fica em silêncio por alguns segundos… como se até a luz resolvesse falar baixo.
Foi num desses dias.
Ela entrou segurando uma sacolinha pequena, dessas que a gente carrega mais por nervosismo do que por necessidade. Sentou e, antes que eu perguntasse qualquer coisa, disse:
“Eu sei que parece bobagem.”
Essa frase, eu já ouvi em muitas variações. “É só uma manchinha.” “É só uma vermelhidão.” “É só um detalhe.” E quase sempre vem acompanhada de uma espécie de pedido de desculpas por existir, como se a pessoa estivesse ocupando um espaço que não merecia.
Eu olhei para ela com o cuidado que se oferece quando alguém está prestes a derrubar um copo cheio. Não por fragilidade, mas por excesso: excesso de tentativa, excesso de autocobrança, excesso de anos engolindo coisas pequenas que, por dentro, viram montanhas.
“Não é bobagem se te atravessa,” eu respondi.
Ela abriu a sacolinha e tirou um espelho. Um espelho simples, de bolsa, arranhadinho na borda. Colocou na mesa entre nós como se fosse uma prova material.
“Eu não consigo mais me olhar sem procurar defeito,” ela disse. “Antes eu era… normal. Agora eu acordo e a primeira coisa que eu faço é checar se piorou.”
Piorou. Essa palavra tem peso. Ela não estava falando só de pele.
Ela me contou sobre o verão, o calor que “acende” o rosto, as bochechas que ficam como se tivessem uma lâmpada por dentro, o ardor que aparece quando o dia ainda nem começou. Contou sobre os cremes comprados por impulso, os ácidos “milagrosos”, as dicas do feed, os vídeos de vinte segundos ensinando a resolver a vida em dois passos.
E aí veio a parte que ninguém coloca nos “antes e depois”.
Ela falou de uma reunião em que um colega disse: “Nossa, você tá vermelha… bebeu ontem?” e riu como se fosse íntimo do próprio humor. Falou do elevador, do porteiro simpático que perguntou se ela tinha pego sol. Falou do dia em que alguém, com boa intenção e péssima mira, recomendou “passar limão” porque “clareia”.
A pele, naquele momento, já tinha virado assunto público.
E o corpo, quando vira assunto público, aprende a se defender. Só que ele não levanta escudo, ele levanta sintoma. Ele aperta, ele esquenta, ele inflama. Ele faz barulho para ver se alguém finalmente presta atenção.
Eu perguntei o que ela mais queria.
Ela não disse “sumir com a vermelhidão”. Ela disse:
“Eu queria parar de me sentir observada.”
Quando alguém diz isso, a consulta muda de tom. Deixa de ser sobre produto, procedimento, protocolo. Passa a ser sobre devolver autonomia. Sobre construir uma rotina que não seja punição. Sobre fazer as pazes com o próprio rosto como quem volta para casa depois de uma briga longa.
Eu expliquei, com calma, que pele sensível não é pele fraca. É pele alerta. É pele que sente rápido. Que reage rápido. Às vezes por predisposição, às vezes por fase, às vezes porque a gente tentou “domar” com coisas fortes demais. Falei sobre gatilhos, sobre calor, sobre sol, sobre o paradoxo de querer tratar inflamação causando mais inflamação.
E então eu propus uma coisa que sempre parece simples demais para o tamanho da dor:
“Vamos fazer um plano que você consiga manter nos dias ruins.”
Porque o problema das rotinas perfeitas é que elas só funcionam quando a vida está perfeita. E a vida raramente está.
A gente desenhou um começo: poucos passos. Um limpador gentil. Um hidratante de barreira. Fotoproteção confortável, daquela que você consegue usar sem sentir que está vestindo uma máscara. Sem perfume. Sem heroísmo.
Ela me olhou desconfiada, como quem ouve: “Seu conserto é água e sabão.”
“Só isso?” ela perguntou.
“Isso primeiro,” eu disse. “Depois, o resto.”
A pele é um bicho curioso: ela gosta de constância. Ela se acalma com repetição. Ela confia quando percebe que ninguém vai atacá-la de novo em nome de ‘resolver’.
Antes de sair, ela pegou o espelho arranhado e ficou olhando para ele, como se tivesse medo de abrir. Um medo antigo, desses que a gente reconhece.
“Eu tenho vergonha de vir aqui por isso,” ela disse.
Eu respirei e pensei em quantas pessoas carregam vergonha nas bolsas, junto com chaves e batons. Vergonha por sentir demais. Vergonha por se importar. Vergonha por querer estar bem.
“A dermatologia não trata só pele,” eu respondi. “Ela trata do lugar que a pele ocupa na vida da gente. E isso é grande.”
Ela levantou, colocou o espelho na sacolinha e, antes de ir, disse uma frase que me pegou pelo lado de dentro:
“Eu não quero mais brigar comigo todo dia.”
Quando a porta fechou, o consultório ficou em silêncio de novo. Eu olhei para a bancada, para os frascos alinhados, para os papéis, para a rotina impecável do ambiente… e pensei no que não aparece nas fotos bonitas: o que cura, muitas vezes, é o que cabe.
Cabe no dia corrido. Cabe no cansaço. Cabe na maternidade, no trabalho, no calor, no mundo.
A gente romantiza o “resultado”. Mas o que muda a vida de alguém quase sempre é a paz. Paz de não testar vinte coisas. Paz de não acordar em guerra. Paz de entender que a pele não é inimiga. É mensageira.
A pele não esquece, é verdade. Ela tem memória. Ela lembra do sol, da fricção, do estresse, das tentativas desesperadas. Mas a pele também aprende. Aprende quando você troca agressão por cuidado. Aprende quando você faz o básico bem feito. Aprende quando você decide que você merece um plano que te acolha.
E talvez seja isso que eu mais gosto nos sábados: pensar que, do outro lado da tela, alguém vai ler isso e, por alguns segundos, baixar a guarda.
E, quem sabe, guardar o espelho de volta na bolsa com menos peso.




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