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O que separa rejuvenescer de ficar estranha

  • Foto do escritor: Carla Knust
    Carla Knust
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Tem uma pergunta que eu faço para mim mesma todas as vezes que vou fazer um procedimento estético em uma paciente.


A pergunta é simples:


"Quando essa pessoa olhar no espelho amanhã, ela vai ver ela, ou outra pessoa?"


Se a resposta é "ela", eu sigo.


Se a resposta é "outra pessoa", eu paro.


Esse é o critério mais importante da minha prática. E é o critério que separa rejuvenescer de ficar estranha.


Mas pra entender o que isso quer dizer, a gente precisa falar sobre algo desconfortável.


Rosto de mulher dividido em três partes: envelhecido nas laterais e jovem no centro. Fundo azul claro. Mood de transformação.

A epidemia silenciosa do rosto descaracterizado


Você já reparou que, em alguns rostos, dá pra perceber instantaneamente que "fez alguma coisa", mesmo sem saber exatamente o quê?


A bochecha alta demais. O lábio com formato que não combina. O contorno facial que não bate com a idade. O olhar que parece "puxado" para baixo, ou para os lados. A expressão que sumiu.


Não é uma feição ruim. É uma feição que não é dela.


Esse fenômeno tem nome na literatura científica recente: alteração de identidade facial estética. E é um dos efeitos colaterais mais subestimados da dermatologia estética mal praticada.


A pessoa não fica feia. Fica outra.


E o pior: muitas vezes ela mesma não percebe. Porque a transformação é gradual. Cada procedimento adiciona uma camada. A pessoa se acostuma. O espelho deixa de ser referência — porque o espelho mostra a versão atual, não a versão original.


Quando ela se dá conta, geralmente é olhando uma foto antiga.


Os cinco critérios da minha prática


Pra evitar entrar nessa rota, eu trabalho com cinco critérios fixos. Eles são a base de toda consulta de rejuvenescimento que faço.


1. A meta nunca é "transformar". É restaurar. Restaurar volume onde ele foi perdido. Restaurar contorno onde ele se diluiu. Restaurar a aparência de descanso que o cansaço acumulado tirou. O ponto de chegada é a versão da paciente há cinco, dez anos — não uma paciente diferente.


2. O olho do médico não é o olho que importa. O que importa é o olho de quem convive com a paciente. Família, amigos, colegas de trabalho. Se essas pessoas perceberem que "tem algo diferente, mas não consigo dizer o quê" — sucesso. Se elas perguntarem "você fez alguma coisa?" — alerta.


3. Pouco é mais. A regra que eu mais repito no consultório. É sempre melhor fazer menos do que parece necessário, e complementar no retorno, do que fazer mais e tentar "consertar". Procedimentos estéticos não têm botão de desfazer fácil.


4. Cada rosto tem um mapa próprio. Não existe protocolo único. Uma mulher de 45 anos com perda de volume zigomático tem um plano. Outra mulher de 45 anos, com a mesma queixa, mas com osso da face mais proeminente, tem outro plano completamente diferente. Quando o aplicador segue uma "fórmula padrão", o resultado é o rosto padrão — e foi exatamente assim que se popularizou aquele "rosto típico" que dá pra reconhecer de longe.


5. A vontade da paciente é guia, mas não cheque em branco. Se a paciente chega pedindo um procedimento que eu, clinicamente, considero inadequado para o caso dela, eu digo não. Posso explicar, posso oferecer alternativa, mas posso negar. Médica boa não faz tudo que a paciente pede — médica boa faz o que é certo para a paciente. Isso é dermatologia ética, não comércio.


Os sinais visuais que indicam excesso


Existem alguns sinais que, quando aparecem juntos em um rosto, indicam que houve excesso de intervenção. Vou listar — não para julgar ninguém que tenha esses sinais, mas para você saber o que evitar:


Bochechas projetadas para frente de forma desproporcional ao resto do rosto. Lábios com volume desconectado da identidade original. Têmporas excessivamente preenchidas, criando aparência de "rosto inchado". Mandíbula com contorno excessivamente angular em rosto antes oval. Olhos com expressão "puxada" não-natural. Testa totalmente imóvel mesmo em expressões intensas. Pele com brilho artificial em fotos de perto.


Quando dois ou três desses sinais aparecem juntos, o rosto começou a perder identidade.


O que pedir e como pedir


Se você está pensando em começar um processo de rejuvenescimento, sugiro algumas frases para usar na consulta:


"Não quero parecer que fiz alguma coisa. Quero parecer descansada."


"Quero a versão de mim há cinco anos, não outra pessoa."


"Prefiro fazer pouco agora e voltar daqui um tempo, do que fazer muito de uma vez."


"Quero entender exatamente onde você vai aplicar e por quê — antes de qualquer agulha tocar minha pele."


Médica que se incomoda com essas frases não é a tua médica.


Médica que se sente confortável com essas frases — provavelmente é.


Amanhã: o preenchedor estrutural. A arquitetura invisível que rejuvenesce sem ninguém perceber que houve preenchedor.


Dra. Carla Knust Bastos — dermatologista CRM SC 18309 | RQE 21114

Instituto Libertà — Florianópolis

 
 
 

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