O mito da flacidez: muitas mulheres não têm flacidez. Têm perda de estrutura.
- Carla Knust

- há 1 dia
- 6 min de leitura
Por Dra. Carla Knust Bastos, Dermatologista em Florianópolis
Muitas mulheres chegam ao consultório com uma queixa muito parecida:
“Dra., acho que meu rosto está ficando flácido.”
Elas apontam para o sulco perto da boca, para a mandíbula menos definida, para a bochecha que parece ter descido ou para a sensação de que o rosto está “derretendo”.
E, sim, em alguns casos existe flacidez.
Mas nem sempre.
Na verdade, muitas mulheres que acreditam ter flacidez facial estão percebendo outra coisa: perda de estrutura.

Esse é um dos pontos mais importantes para entender o envelhecimento facial moderno. Porque quando confundimos perda de estrutura com flacidez, corremos o risco de tratar o problema errado.
E tratar o problema errado pode gerar resultados artificiais, pesados ou frustrantes.
Nem tudo que “caiu” está flácido
A palavra flacidez virou uma espécie de diagnóstico popular.
Qualquer mudança no contorno do rosto costuma ser chamada de flacidez.
A mandíbula perdeu definição? “Flacidez.”
O sulco nasogeniano ficou mais marcado? “Flacidez.”
A bochecha parece mais baixa? “Flacidez.”
O rosto parece menos firme nas fotos? “Flacidez.”
Mas o rosto não envelhece apenas porque a pele ficou frouxa.
O rosto envelhece porque várias camadas mudam ao mesmo tempo:
osso;
gordura;
ligamentos;
músculos;
pele.
Quando a sustentação profunda se altera, a superfície também muda.
É como olhar para uma cortina enrugada e imaginar que o problema é apenas o tecido, quando, na verdade, o trilho que a sustenta está torto.
O que é flacidez de verdade?
A flacidez acontece quando a pele e os tecidos perdem firmeza, elasticidade e capacidade de sustentação.
Ela pode estar relacionada à redução de colágeno, à perda de elastina, ao envelhecimento natural, à exposição solar acumulada, às oscilações de peso e a fatores hormonais.
Na face, a flacidez pode aparecer como:
pele mais frouxa;
textura mais fina;
linhas que permanecem mesmo em repouso;
excesso de pele em algumas regiões;
menor capacidade da pele de “voltar” após ser tracionada;
aspecto de pele menos densa.
A flacidez existe, mas ela não explica tudo.
E esse é o ponto central.
Muitas vezes, o que incomoda a paciente não é apenas a pele. É a perda da sustentação que existia abaixo dela.
O que é perda de estrutura facial?
A perda de estrutura facial acontece quando as camadas profundas do rosto deixam de oferecer o mesmo suporte de antes.
Isso pode envolver:
remodelação óssea;
perda de volume em compartimentos de gordura;
deslocamento dos tecidos;
enfraquecimento de pontos de sustentação;
alteração do contorno facial.
Na prática, a paciente percebe que o rosto perdeu arquitetura.
Não é exatamente pele sobrando.
É suporte faltando.
Essa diferença muda completamente o raciocínio.
Porque, se o problema principal é perda de estrutura, tratar apenas a pele pode melhorar pouco.
A face tem pilares de sustentação
O rosto jovem costuma ter transições suaves.
A região das maçãs do rosto tem suporte. A mandíbula tem contorno.A pele reflete melhor a luz. O olhar parece descansado. As sombras são mais delicadas.
Com o tempo, alguns desses pilares perdem força.
A região malar pode perder projeção.O contorno mandibular pode ficar menos definido.A região abaixo dos olhos pode ganhar sombra.O sulco perto da boca pode parecer mais profundo.
A paciente olha no espelho e diz:
“Minha pele caiu.”
Mas, muitas vezes, o que aconteceu foi:
“Minha estrutura perdeu suporte.”
Essa distinção é essencial para um rejuvenescimento natural.
Por que o sulco nasogeniano nem sempre deve ser preenchido diretamente?
O sulco nasogeniano, aquela linha que vai do nariz em direção ao canto da boca, é uma das queixas mais frequentes no consultório.
Durante muito tempo, a solução mais comum era preencher diretamente esse sulco.
Mas hoje sabemos que, em muitos casos, ele não é o verdadeiro problema.
Ele pode ser apenas uma consequência.
Quando a região média do rosto perde sustentação, os tecidos descem e o sulco parece mais marcado.
Ou seja: o sulco aparece porque algo acima dele mudou.
Se tratarmos apenas a dobra, sem entender a causa, o resultado pode ficar pesado.
É por isso que, em muitos casos, a pergunta mais importante não é:
“Como apagar esse sulco?”
Mas sim:
“Por que esse sulco apareceu?”
A mandíbula perdeu definição. Isso é flacidez?
Pode ser.
Mas também pode ser perda de estrutura.
A linha da mandíbula depende de vários fatores:
formato ósseo;
posição dos tecidos;
sustentação do terço médio;
qualidade da pele;
gordura localizada;
força muscular;
envelhecimento do pescoço.
Quando a paciente percebe o contorno facial mais “embaçado”, pode haver flacidez, mas também pode existir perda de suporte em regiões superiores da face.
Por isso, tratar apenas a linha da mandíbula nem sempre resolve.
O rosto precisa ser avaliado como um mapa, não como uma lista de pontos isolados.
O erro de tratar tudo como flacidez
Quando tudo é chamado de flacidez, tudo passa a ser tratado como se precisasse de “firmeza”.
A paciente procura cremes firmadores. Depois, tratamentos que prometem “efeito lifting”. Depois, procedimentos focados apenas em contrair a pele.
Essas opções podem ter valor, desde que bem indicadas.
Mas, se o problema principal é perda de estrutura, o resultado pode ser limitado.
É como tentar levantar uma tenda puxando apenas o tecido, quando as hastes internas estão tortas ou mais baixas.
O tecido importa. Mas a sustentação importa muito também.
Bioestimuladores, preenchimento, tecnologias: cada um tem uma função
Um rejuvenescimento natural não depende de um único procedimento.
Ele depende de diagnóstico correto.
Algumas pacientes precisam melhorar qualidade de pele. Outras precisam estimular colágeno. Outras precisam recuperar pontos discretos de sustentação. Outras precisam equilibrar musculatura. Outras precisam tratar manchas, vasos, poros ou textura. Muitas precisam de uma combinação cuidadosa.
De forma geral:
Bioestimuladores de colágeno
Podem ajudar na melhora progressiva da firmeza, densidade e qualidade da pele, quando bem indicados.
Preenchedores
Podem ser usados para restaurar suporte ou volume em pontos estratégicos, sempre com planejamento e naturalidade.
Tecnologias
Podem melhorar textura, manchas, vasos, poros, estímulo de colágeno e qualidade global da pele, dependendo da indicação.
Toxina botulínica
Pode equilibrar forças musculares e suavizar linhas de expressão, preservando movimento quando usada com bom senso.
Nenhum desses recursos deve ser escolhido porque está “na moda”.
O procedimento certo é aquele que responde à causa real da queixa.
Por que algumas mulheres ficam artificiais?
Muitas vezes, o aspecto artificial não vem de fazer procedimentos.
Vem de fazer o procedimento errado, no lugar errado, na quantidade errada ou pela razão errada.
Quando toda queixa é tratada como volume, o rosto pode ficar pesado.Quando toda queixa é tratada como flacidez, o resultado pode ficar insuficiente.Quando toda ruga é apagada, a expressão pode perder naturalidade.Quando se copia o rosto de outra pessoa, a identidade desaparece.
A estética mais sofisticada não é aquela que transforma.
É aquela que interpreta.
Ela entende o rosto antes de intervir.
Como saber se é flacidez ou perda de estrutura?
Essa diferenciação precisa ser feita em consulta, com avaliação individualizada.
Mas algumas pistas podem ajudar.
Pode haver maior componente de flacidez quando existe:
pele fina e frouxa;
perda de elasticidade;
excesso de pele;
textura mais enrugada;
histórico de muito sol;
emagrecimento importante;
flacidez também em pescoço ou outras áreas.
Pode haver maior componente de perda de estrutura quando existe:
rosto com aspecto mais “vazio”;
olheiras mais profundas;
sulcos mais marcados;
perda de projeção das maçãs do rosto;
mandíbula menos definida;
sensação de rosto cansado mesmo sem muita ruga;
piora importante em fotos por causa das sombras.
Na maioria das vezes, não é uma coisa ou outra.
É uma mistura.
Mas saber qual componente predomina ajuda a escolher um plano mais inteligente.
A pergunta certa não é “qual procedimento eu preciso?”
Essa talvez seja a virada mais importante.
A paciente costuma chegar perguntando:
“Dra., eu preciso de bioestimulador?” “Preciso de preenchimento?” “Preciso de laser?” “Preciso de toxina?”
Mas a pergunta mais estratégica é outra:
“O que está causando a mudança que eu percebo no meu rosto?”
Sem essa resposta, qualquer procedimento vira tentativa.
Com essa resposta, o tratamento vira plano.
E plano é o que separa rejuvenescimento natural de exagero.
O futuro do rejuvenescimento é menos “fazer” e mais “entender”
A dermatologia estética caminha para uma abordagem mais precisa, mais anatômica e mais individualizada.
Não se trata de preencher todo rosto. Não se trata de congelar expressão. Não se trata de perseguir juventude a qualquer custo. Não se trata de transformar traços.
Trata-se de entender como aquele rosto envelhece.
Algumas mulheres envelhecem mais por perda de colágeno. Outras por perda de volume. Outras por alterações de contorno. Outras por inflamação crônica da pele. Outras por exposição solar acumulada. Outras por mudanças hormonais, metabólicas e estilo de vida.
Cada rosto tem sua biografia.
A consulta dermatológica serve para ler essa biografia com precisão.
Conclusão: talvez seu rosto não esteja “caindo”
Talvez ele esteja pedindo sustentação. Talvez ele esteja perdendo colágeno. Talvez ele esteja criando sombras. Talvez ele esteja mudando a distribuição dos volumes. Talvez ele precise de pele melhor, não de mais volume. Talvez ele precise de estrutura, não de exagero.
Chamar tudo de flacidez empobrece a conversa.
E o seu rosto merece uma análise melhor do que isso.
O rejuvenescimento natural começa quando paramos de perguntar apenas “o que caiu?” e começamos a perguntar:
“O que mudou na arquitetura desse rosto?”
Porque, muitas vezes, a mulher não precisa parecer outra.
Ela precisa apenas recuperar a harmonia que sempre foi dela.
Agende sua avaliação dermatológica
Se você sente que seu rosto perdeu definição, parece mais cansado ou mudou de forma sutil nos últimos anos, uma avaliação individualizada pode ajudar a identificar se o principal componente é flacidez, perda de estrutura, alteração de volume ou qualidade da pele.
Dra. Carla Knust Bastos
Médica Dermatologista em Florianópolis
CRM-SC 18309 RQE Dermatologia 21114




Comentários